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União Google-Apple: quais os desafios para a tecnologia que pretende alertar sobre contágio do coronavírus?

Android e iOS poderão 'conversar entre si' para rastrear casos da Covid-19 e alertar usuários, mas existem diversos entraves para que tudo funcione na prática.

O Google e a Apple anunciaram uma parceria para criar uma um canal de comunicação padronizado com a finalidade de “rastrear contatos”. Na prática, o objetivo é permitir que seu celular “lembre” de outros celulares com quem ele teve contato, mas sem depender de um sistema central que rastreie a localização de todas as pessoas.

Embora tenha várias aplicações, a proposta foi pensada para rastrear o contágio do novo coronavírus. Uma doente poderia registrar seu caso no app, enviando um alerta para todas as pessoas com quem teve contato nos dias de risco.

Apple e Google prometem tecnologia conjunta para combater a pandemia de coronavírus — Foto: Aparecido Gonçalves/Rafael Miotto/G1
Apple e Google prometem tecnologia conjunta para combater a pandemia de coronavírus —  Foto: Aparecido Gonçalves/Rafael Miotto/G1

O sistema deverá preservar a privacidade dos usuários – ao menos dentro do que é possível em uma tecnologia criada para compartilhar informações. Só que, apesar do cuidado que o Google e a Apple têm tido no desenvolvimento, na compatibilidade e nos requisitos técnicos, existem diversos entraves para que tudo funcione na prática.

Veja alguns desafios:

Limitações técnicas no Android

O Google pode alterar e atualizar o sistema operacional Android, mas depende da colaboração de fabricantes para fazer com que as novidades cheguem aos smartphones que de fato estão na mão das pessoas.

Vale lembrar que o sistema do Google domina cerca de 70% dos smartphones em uso no mundo.

Muitos aparelhos não recebem mais atualizações depois de dois anos, o que deixaria muitos usuários sem acesso a esses recursos novos, como a tecnologia voltada ao combate à epidemia.

G1 questionou ao Google na última segunda-feira (13) sobre este e outros aspectos da ferramenta. Nesta quarta, após a publicação da reportagem, a empresa afirmou que a tecnologia será adotada por um pacote de SDK (kit de desenvolvimento de software, na sigla em inglês) de distribuição controlada.

Na prática, o Google pretende limitar o uso da tecnologia por aplicativos não autorizados e garantir compatibilidade com sistemas Android 6.0 e mais recentes.

No entanto, aparelhos mais antigos – inclusive o Android 4.3, por exemplo, que é compatível com o protocolo Bluetooth Low Energy que a tecnologia utiliza – não terão acesso aos alertas.

Segundo dados do Google, que estão desatualizados, é possível que 25% dos celulares Android no mundo fiquem de fora por incompatibilidade técnica.

Além disso, como a tecnologia não será adotada por atualização de sistema, o Google dependerá do controle da distribuição do SDK e de apps na Play Store para limitar usos indevidos do rastreamento.

A Apple tem controle total sobre o ecossistema do iPhonemas o requisito de compatibilidade limita a eficácia da tecnologia também nesses aparelhos.

Um celular topo de linha precisa poder “conversar” até com os modelos mais simples do mercado – sem isso, o dono do aparelho melhor não receberá um alerta quando o dono do dispositivo mais simples for contaminado, por exemplo.

Confiabilidade dos alertas

Da maneira que foi pensada, a tecnologia depende da colaboração das pessoas para enviar os alertas. É o próprio doente que precisa comunicar, através de um aplicativo que tenha essa tecnologia, que foi contaminado. Caso as pessoas não façam isso, os alertas não serão enviados.

Embora haja um incentivo claro para manter o Bluetooth ligado e receber alertas, não existe nenhum incentivo para o usuário avisar os outros se ele se contaminar.

Além disso, se ele já estiver muito doente, enviar um alerta pelo celular pode não ser uma prioridade – pode até não ser sequer uma possibilidade.

Uma questão pendente é quanto à veracidade da informação. Uma pessoa mal-intencionada poderia comunicar que foi contaminada mesmo estando saudável, gerando “alarmes falsos”?

Pelo que se sabe até agora, o sistema é puramente técnico e não prevê qualquer comprovação do diagnóstico. Por outro lado, se exigisse o cadastramento do teste positivo, a falta de testes também seria um entrave para a confiabilidade dos alertas.

De modo geral, a confiabilidade dos dados é vista como um problema “externo” à tecnologia, a ser resolvida por políticas públicas locais e pelos responsáveis pelos apps.

No entanto, também não há previsão para uma ação direta das autoridades de saúde para forçar alertas, por exemplo.

Manter o controle da tecnologia na mão dos usuários é um ideal válido, mas pode não funcionar da maneira esperada em situações que exigem cuidados coletivos.

Coleta de dados

Esse tipo de sistema usa o armazenamento mínimo de informações para gerar alertas sem rastrear pessoas específicas. Mas não está claro se a tecnologia é capaz de impedir que outros aplicativos no smartphone recolham essas informações e as associem com outros dados.

Inicialmente, o sistema será integrado em aplicativos específicos, incluindo apps governamentais, só que eles também teriam acesso aos demais sensores do aparelho – como o GPS, a ID publicitária (identificador que registra a atividade do usuário para oferecer propaganda) ou até os contatos.

O cruzamento desses dados resultaria em um rastreamento completo das pessoas – que é exatamente a prática que a tecnologia busca evitar.

Em teoria, apps que coletam dados para fins publicitários poderiam associar os identificadores recebidos por Bluetooth para marcar as pessoas contaminadas com o novo coronavírus e oferecer até publicidade direcionada aos doentes.

Download de dados

Quanto mais pessoas contaminadas contribuírem com o sistema, mais dados terão de ser baixados para verificar se houve contato com uma delas.

Se essa tecnologia já existisse hoje e as quase 2 milhões de pessoas contaminadas com coronavírus registrassem seus casos em apps, isso geraria 28 milhões de chaves de 16 bytes – ou quase 450 MB.

Com cerca de 70 mil novos casos por dia, o arquivo diário seria de pouco mais de 15 MB. Se cada uma das 227 milhões de linhas do Brasil fizessem esse download, são 3.750 terabytes de dados diários.

Esse processo pode ser otimizado, mas nem todas as otimizações são viáveis. Por exemplo, se o download for restrito a pessoas que estiveram em uma determinada região para diminuir o consumo de dados, esse “download personalizado por região” acabará servindo como uma forma de rastreamento, indicando onde certas pessoas contaminadas estiveram.

Como não é possível baixar o arquivo sem Wi-Fi, 3G ou 4G, e o acesso a redes públicas está limitado pelo isolamento social e confinamento, é possível que as operadoras teriam de abrir exceções para não contabilizar esses downloads, recebendo carga adicional em sua rede de até 450 MB por usuário por mês. Esse volume de dados não deve comprometer a rede, mas é preciso considerar esse custo.

O que fazer com o alerta?

Receber um alerta pode não ser muito útil se não houver nenhum procedimento de resposta estabelecido. A tecnologia será ofertada para o mundo todo, mas cada região tem uma estrutura própria – inclusive na disponibilidade de testes.

Qualquer governo ou entidade que decidir empregar essa tecnologia precisa estruturar políticas de resposta e orientação para que as pessoas tomem a atitude adequada no caso de alerta, em conformidade com os recursos existentes em cada região e outros fatores de risco.

Em outras palavras, a tecnologia, sozinha, pode ser um desserviço para a sociedade. Gestores públicos precisam definir com esmero a orientação que será dada nos aplicativos e se essa complexa tecnologia será mais ou menos útil que o uso diário de um medidor de febre.

Credito:  G1

Domingos Massissa

Estudante de Engª Informática, editor do portal amante do mundo NERD, onde engloba cinema tecnologia e Gamers.

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